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A Bossa Nova de Nara Leão nas músicas de Erasmo e Roberto Carlos

Foto: Divulgação

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Por Wesley Dias

Em 1978, a consagrada cantora Nara Leão se tornava a segunda artista a gravar um disco contendo apenas músicas compostas por Roberto e Erasmo. Nesse momento, Roberto estava no auge da sua produção criativa tendo uma década com inúmeros êxitos. Sucessos esses que foram muito bem pinçados por Nara para a execução do seu novo trabalho.  

A canção escolhida pela cantora para dar início ao disco, foi aquela que já era mencionada no título do trabalho. “Quero Que Vá Tudo Para O Inferno” foi lançada por Roberto em 1965, e é apontada como a música que projetou o cantor nacionalmente. Escolha certeira para encabeçar o álbum.  

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Ainda transitando pela década de 60 do “rei”, Nara designa como segunda faixa “As Curvas da Estrada de Santos”, originalmente gravada em 1969. A primeira abordagem feminina desta música se deu através Elis Regina no álbum “Em Pleno Verão”, de 1971. Em contraponto a abordagem extremamente densa de Elis, Nara (como boa bossa novista que era) deu uma roupagem mais leve a canção. Obtendo no final um resultado bastante interessante.  

A terceira faixa foi ocupada por “Além do Horizonte” de 1975. Na contemporaneidade essa música ficou marcada pela versão realizada pelo grupo Jota Quest, em 2005. A gravação executada por Nara Leão acabou contendo um estilo bastante semelhante a original, levando em conta que a versão original de Roberto Carlos também portava uma levada tranquila.  

Predileção de Nara foi pelo repertório da década de 70 

As demais músicas presentes neste álbum que teve o total de 12 obras, foram “Como é Grande o meu Amor por Você”, “Dia de Chuva”, Olha”, “Cavalgada”, “Proposta”, “Debaixo dos Caracóis dos seus Cabelos”, “A Cigana”, “O Divã” e “Se Você Pensa”.  

Analisando as datas de lançamento das canções, podemos ver que Nara transitou com maior ênfase pela década de 70 de Roberto Carlos. Penso que as circunstâncias que levaram a essa decisão pode ter sido tanto pelo maior número de álbuns que RC possuía nessa década, quanto a maior densidade nas canções que foram compostas nesse período. Já que a partir de 70, Roberto migrou definitivamente para o gênero romântico do qual segue até o presente.  

Nara Leão mostrou que a obra de Roberto Carlos seria de valor em qualquer contexto 

O efeito que João Gilberto causou com o álbum e música título “Chega de Saudade” foi poderoso em 1959. Àquela estreia mudou a música brasileira para sempre, impactando inúmeros artistas, entre eles um jovem Roberto Carlos que recém dava os primeiros passos na sua embrionária carreira.  

Ainda na busca por uma identidade musical, Roberto se arriscou imitando João Gilberto em suas primeiras apresentações. O resultado não foi nada satisfatório, inclusive, o jovem cantor foi bastante descredibilizado na época por essa escolha. Mas passada essa tentativa naufragada de entrar no mundo da Bossa Nova, Roberto logo em seguida se encontrou no Rock e começou a trilhar o caminho do triunfo.  

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O desacerto do artista nessa iniciativa pode ter esbarrado em fatores como a falta de uma identidade própria e um repertório adequado para começar. Elementos que anos mais tarde o cantor encontrou com maestria. Tanto que uma das artistas mais renomadas da Bossa Nova encabeçou um álbum com canções 100% suas. O desempenho de Nara com canções originalmente muito distintas das que costumava cantar, revelava o quanto as letras concebidas por RC e Erasmo em nada perdiam para clássicos da Bossa Nova. O trabalho de Nara encaixou a sonoridade do gênero e a identidade da cantora com fluidez em meio a músicas que até então jamais poderiam ser reimaginadas de outra forma.  

Por muito tempo houve a divisão que ditava apenas a Bossa Nova como a “música de verdade”, e todo o restante era questionável. Mas com o passar do tempo veio a pacificação com os demais gêneros, e a prova está nessa gravação de Nara Leão. A artista que antes gravava apenas canções de Tom Jobim, Vinicius de Moraes e Chico Buarque, agora também reputava o trabalho de Roberto Carlos.

Ouça This Is Nara Leão

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